O Grupo Ato e a Arte em Bauru

O Grupo Ato e a Arte em Bauru

Localizado a 326km de distância da capital, o município de Bauru é o lar de aproximadamente 370 mil habitantes, e entre eles está o Carlos Batista e a Elisabete Benetti.

Ele, autor e diretor teatral e ela, atriz e pedagoga, foram os responsáveis por fundar no ano de 1989, o Grupo Ato no município, com o propósito de difundir a cultura na região, acreditando no poder que a arte tem para sensibilizar o homem e melhorar a sua condição como pessoa e cidadão.

Formado por artistas profissionais e fugindo do amadorismo, o grupo encara a arte da forma mais profissional possível, e nos seus 29 anos de trabalho, somam 17 espetáculos no seu currículo, incluindo histórias famosas como “Rapunzel” e “Alice no País das Maravilhas”.

Em 2007, ano em que completavam 18 anos de atuação, Elisabete se viu diante de uma crise pessoal e profissional que a fazia se incomodar com o pensamento de entender o que realmente significava fazer o artístico, o teatral. “A quem interessa a arte?”, “Que benefícios ela traz à sociedade?”. Esses eram alguns dos questionamentos que Elisabete se fazia durante sua crise, pois para os artistas, cada processo, cada peça apresentada, era o “bem” cada vez mais evidente e esclarecido, entretanto, não se tinha certeza do quanto a sociedade se impactava.

Este incômodo foi o percursor de um novo passo da instituição: a criação do Projeto Gente Legal. Idealizado pela própria Elisabete, o Gente Legal é um projeto de responsabilidade social que leva a arte para além do palco, com o objetivo de aproximar o teatro dos educadores de ensino e atendimento social através do compartilhamento de experiências artísticas, renovadas ano a ano.

Nas falas de Elisabete, o projeto representa “a busca pelo outro, a confirmação de que a arte amplia a consciência e também desvela belezas do cotidiano, com pessoas se colocando à disposição do movimento da vida. ”

No projeto, a cada 15 dias professores e pessoas “legais” participam de atividades definidas por um planejamento anual. Na sua criação, o projeto objetivava o foco no público infantil, entretanto, foi moldando-se com a percepção de que o alcance da arte poderia ser bem maior se o foco fosse quem educava as crianças, o que resultou em um histórico de 9 peças realizadas com este grupo, que tem a participação de educadores de 26 instituições.

Assim como a arte nunca é suficiente, as ambições do grupo também sempre buscam ir além do que já está sendo possível, e em 2011, o projeto Gente Legal, ganha um Ponto de Cultura. Com parceria do movimento Cultura Viva do Governo Federal e a prefeitura Municipal de Bauru, o ponto atende jovens, adultos e idosos, e desde 2014 desenvolve o processo de forma voluntária, sem nenhum tipo de apoio governamental, atendendo a proposta de “Ampliar o entendimento de mundo pelo artístico. ”

Em 2017, o Grupo Ato recebeu o apoio da Credicitrus e da Coopercitrus para a adequação do Espaço Casulo, local onde acontecem ações do Ponto de Cultura Gente Legal. O investimento feito através da Ação Social Cooperada permitiu a criação de uma arquibancada móvel e retrátil que acomoda até 100 pessoas e a construção de um banheiro ecológico. E em 2018, receberam o apoio para aquisição de máquina de costura e itens para investirem na expansão dos objetivos do Projeto Legal a partir do próprio trabalho com a comunidade para geração de renda, por meio da produção de produtos a partir de técnicas orientadas, como a costura, o artesanato, a serigrafia e a fotografia. O espaço Casulo é utilizado para várias atividades, como ensaio das peças do grupo, elaboração de suas atividades, sessões de cinema e apresentação das pessoas para comunidade local, proporcionando cultura e arte para pessoas que não têm acesso a esse tipo de lazer e aprendizado.

Elisabete conta que na trajetória do projeto, várias situações a marcaram e serviram como prova de que o caminho percorrido estava correto. “Uma situação que me marcou imensamente, e ainda me emociona, foi a realização de um trabalho com atendidos da Casa de Nazaré, instituição que abriga meninas retiradas das famílias, principalmente pela violência. Elas eram meninas que não acreditavam nelas próprias, e diziam sempre que somente no Ponto de Cultura elas eram ouvidas. O trabalho que realizamos com essas garotas foi o espetáculo “Sapatinhos Gastos de Tanto Dançar”, que conta a história de princesas que foram proibidas de dançar e são aprisionadas pelo pai. De maneira objetiva, a história conta a convivência conflituosa e o tratamento que estas meninas recebiam, e desenvolvendo este auto entendimento sobre a sua situação, assumindo a autonomia, um pertencimento social”, ela relata.

Assim como o Projeto Guri em Marília, sobre o qual já falamos aqui no blog, o Grupo Ato também é responsável por fazer mudanças na vida de pessoas de forma direta e indireta através da arte, exemplificando uma das infinitas possibilidades de cooperar com o próximo. E cooperar com o próximo, segundo Elisabete “gera surpresas positivas todos os dias”.