Yougreen: O cooperativismo fazendo a diferença na vida das pessoas

28/06/2019

Costumamos dizer que estamos colocando as pessoas na base da pirâmide, porque nem na pirâmide elas estavam.

Você já deve ter ouvido falar de cooperativismo. Até porque, Ação Social Cooperada tem como idealizadoras as cooperativas Credicitrus e Coopercitrus.  Estas são cooperativas de notoriedade nacional em seus ramos e, desde sempre, têm como objetivo o crescimento não só de suas áreas de atuação e desenvolvimento, mas também de sua responsabilidade social nestas áreas.

Este modelo econômico teve seu início em 1844 e, desde então, é reconhecido com um dos modelos econômicos que mais contribui para o desenvolvimento econômico e social do seu quadro de associados eliminando as diversas lacunas encontradas em outros sistemas. Embora saibamos, através da Credicitrus e da Coopercitrus, como o cooperativismo é importante para proporcionar uma sociedade mais igualitária, hoje vamos apresentar a você outro ramo: o de uma cooperativa de catadores de resíduos recicláveis, que é apoiada pela Ação Social Cooperada: a Yougreen.

Você pode até estar achando um tanto estranho uma cooperativa ser apoiada por outras duas, mas cooperativismo é assim mesmo.

No artigo anterior conversamos com o diretor da Yougreen, Roger Koeppi, que nos apresentou a história e a importância desta cooperativa. Dando continuidade ao assunto, esta edição apresenta um papo sobre o modelo econômico em questão, ainda com o Roger que se considera um cooperativista de corpo e alma.  Ele foi apresentado ao cooperativismo através dos próprios catadores, quando a Yougreen ainda era somente uma faísca brotando em sua mente. Ele conheceu a situação dos catadores no Brasil e percebeu que estes seguiam um dos preceitos cooperativistas onde todos são donos, o lucro é dividido entre todos e quanto mais se produz, maior é a sobra para os envolvidos.

“Existe isso?, eu pensei. ‘Existe!’, me contaram. Aí eu apaixonei”.

Como foi este primeiro contato com o termo cooperativismo?

Roger: Por eu trabalhar em chão de fábrica, sempre pensei na questão da motivação, de o funcionário não entender a função social dele na empresa. De repente, tinha um modelo de negócio que colocava este mesmo funcionário como dono e achei aquilo incrível. Imaginei o modelo cooperativista na linha de produção, com todas as ferramentas do mundo corporativo e implantadas na Yougreen, como embrião de um case a ser experimentado.

Qual sua visão sobre o cooperativismo?

Roger: Acredito que o cooperativismo tenha uma interpretação muito romântica e eu tento desconstruir este pensamento, mostrando que ele é um modelo organizacional que pode errar como qualquer outro. A diferença está em como as pessoas se organizam e isso é espetacular. O que a Yougreen faz pode ser maravilhoso e lindo, mas o diferencial está na forma como ela faz. Isso a coloca em uma condição de igualdade com quem está, momentaneamente, dirigindo o negócio. A assimetria é muito menor entre o funcionário que está na operação e o funcionário que está na gestão.

Quais os benefícios deste modelo?

Roger: Isso leva a melhores decisões. As cooperativas sobrevivem muito mais em relação às empresas convencionais, e na crise, as cooperativas são mais resilientes do que empresas de capital. Acredito que é um modelo que pode inspirar empresas a como respeitar seus funcionários e como valorizar melhor o que cada um tem a contribuir. Eu sou um cooperativista e o que posso dizer é que este modelo é incrível, mas ele deve ter como base os 7 princípios que é algo que não deveria ser novo, mas que a gente pouco ouve falar. É importante também se questionar sempre: Quão cooperativa é a nossa cooperativa? Como a gente mede os 7 princípios, quais são os indicadores para ver o nosso princípio de auto cooperação e de independência.

Porque a Yougreen optou pelo cooperativismo como modelo econômico?

Roger: Na prática, não havia outras opções na minha cabeça no início: Eu queria abrir uma cooperativa de catadores eficiente e isso não foi fruto de um estudo e comparativo com outros modelos. Hoje eu sei o porquê. Por eu ter trabalhado em empresas convencionais, vejo que é completamente diferente o modelo mental de uma pessoa que trabalha em uma empresa em comparação a uma pessoa que trabalha em uma cooperativa. Não é verdade que todos os dias nossos cooperados estão sorrindo, cantando, se abraçando e dançando. Não é isso. Mas a gente percebe que as pessoas estão querendo ouvir sugestões porque elas entendem que essa sugestão vai gerar um ganho de produtividade e ela pode ganhar mais. Eu muito cedo comecei a ganhar um dinheiro bom em comparação às pessoas do bairro onde eu morava e da minha família. Desconheço o porquê, mas isso me incomodava: tão novo, eu ganhar tão bem, comparado a pessoas que estão na mesma empresa há 15, 20 anos. Hoje eu tenho consciência de que conseguimos montar uma cooperativa para remunerar tão bem quanto o mercado, mas diminuindo as distâncias do que ganha um diretor para quanto ganha o trabalhador de menor remuneração.

Como o cooperativismo transforma a realidade dos cooperados da Yougreen?

Roger: Nós temos vários programas de capacitação de cooperados, cursos de cooperativismo, cursos externos, rodas de conversa.  Várias ações para além da renda, mas meu foco particular, é na renda. Enquanto a média de um catador no Brasil é de R$571 por mês, aqui conseguimos fixar o piso no triplo deste valor, fazendo essencialmente o mesmo trabalho, por menos horas, com equipamentos de segurança, uniformes, em um local abrigado, com Previdência Social, INSS e tudo o que essa pessoa tem direito. Isso transforma completamente a vida de uma pessoa.  Isto proporciona até pela primeira vez conseguir alugar uma casa, porque antes morava em um abrigo. A pessoa consegue mandar dinheiro para os familiares no Congo, Nigéria, Haiti, Angola, porque quando ela chegou no Brasil, o máximo que ela conseguiu foi dinheiro para sobreviver. Ela pode financiar um carro, entrar numa loja e comprar um celular. Isso muda a motivação, muda a autoestima, o amor próprio e várias outras coisas vem junto com ser um cidadão. Pode ser afirmado que estamos colocando as pessoas na base da pirâmide, porque nem na pirâmide elas estavam. 

Lembra quando falamos de sustentabilidade econômica? Era exatamente sobre iniciativas como da Yougreen que estávamos falando. Esta nos prova que, mesmo diante dos impasses que a desigualdade social proporciona na comunidade, com boas ideias, apoio e grandes mentes a frente é possível fazer a diferença.

A Yougreen nos inspira enquanto cooperativa e como transformadores sociais e esperamos que ela inspire também a você fazer parte da mudança em sua comunidade. Incentive uma instituição da sua cidade a se cadastrar como parceira da Ação Social Cooperada . Afinal grandes transformações não necessariamente necessitam de grandes ações a exemplo do que vimos acima.